Após Lula, delegado da PF defende prisão de outros políticos corruptos
Policial da PF afirma que “agora é hora de serem presos líderes de viés ideológico diverso”. Procurador quer fim do foro privilegiado
Após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado na Lava Jato, investigadores ligados à operação dizem que os próximos passos devem ser o aprofundamento das apurações contra líderes de outros partidos, assim como a aprovação de mudanças na legislação penal e o fim do foro privilegiado.
O delegado da Polícia Federal Milton Fornazari Júnior (foto principal), responsável pela Delegacia de Repressão a Corrupção e Crimes Financeiros em São Paulo (Delecor), afirmou em uma rede social: “Agora, é hora de serem investigados, processados e presos os outros líderes de viés ideológico diverso, beneficiários dos mesmos esquemas ilícitos que sempre existiram no Brasil (Temer, Alckmin, Aécio etc).”
A reportagem procurou no sábado (7/4) as assessorias do presidente Michel Temer (MDB), do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do senador Aécio Neves (PSDB-MG), mas até a noite deste domingo (8), nenhuma delas se havia manifestado.
Temer foi denunciado duas vezes e é investigado em um inquérito pela Procuradoria-Geral da República. Aécio foi denunciado e é investigado na Lava Jato. Alckmin é alvo de investigação por caixa 2 no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em razão da delação da Odebrecht.
Post deletado
O texto de Fornazari foi publicado no sábado, no momento em que Lula era levado pela PF para Curitiba (PR). Um amigo lhe perguntou se podia compartilhar e ele respondeu: “Fique à vontade”. No domingo, porém, o policial o retirou do ar. E publicou novo texto: “Para você que gosta de me monitorar aqui, não adianta se articular, vamos continuar prendendo os corruptos de todos os gêneros”.
Experiente, o delegado tem em seu currículo a apuração sobre o cartel do Metrô de São Paulo. Também foi responsável pelo inquérito que apura desvios de recursos nas obras do Rodoanel, em São Paulo, levando à prisão Paulo Vieira de Souza, ex-diretor do Dersa, apontado como operador do PSDB paulista. Ele é, ainda, especialista em cooperação internacional para identificação de lavagem de dinheiro e ocultação de valores.
Fornazari também comentou a situação de Lula. Ele escreveu que o ex-presidente “objetivamente recebeu bens, valores, favores e doações para seu partido indevidamente por empresas beneficiadas pela corrupção em seu governo”. “Por isso, merece a prisão.”
Conclui afirmando que se as investigações futuras do órgão chegarem aos outros líderes políticos, citados por ele, “teremos realmente evoluído muito como civilização”. “Se não acontecer e só Lula ficar preso, infelizmente, tudo poderá entrar para a história como uma perseguição política.”
MPF
O delegado não foi o único a se manifestar. O procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, desmentiu a acusação de “seletividade” da operação feita por petistas.
Ele comentou uma reportagem de O Globo, que mostrava investigações envolvendo, além de Lula e do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB), Temer e Aécio. “Mas ainda é preciso fazer mais por todo o Brasil. Lute pelo fim do foro privilegiado, de mudanças nas leis penais e no fortalecimento da democracia.”
Para a presidente do Sindicato dos Delegados Federais de São Paulo, Tânia Prado, a prisão de Lula cria condições para o fortalecimento do papel da PF. “Vemos uma investigação iniciada há quatro anos dar resultado.” Para ela, fica “evidente” pelas investigações feitas até agora que a PF não tem partido e investiga independentemente da ideologia do acusado.
“O trabalho da Lava Jato vai continuar, não só em São Paulo, mas em outros estados, com seus desdobramentos”, disse. Segundo Tânia, os delegados querem procurar “a verdade” em seus inquéritos” e determinar “quem é o autor e encontrar a materialidade dos delitos. É o que sempre fizemos.”
Após a prisão de Lula, a Associação Nacional de Delegados Federais publicou nota na qual dizia que a PF “não tem cor, nem partido – tem missão! E exerce seu papel independentemente de quem seja o investigado, com equilíbrio, moderação e responsabilidade”.
Fonte: Agência Estado / Estadão Conteúdo
Foto: ADPF/Divulgação