ARTIGO: Quando a democracia e a liberdade “subiram no telhado”

Por Percival Puggina (*)

A eleição de Bolsonaro em 2018 surpreendeu os “estrategistas” da política e da justiça. Como alguém com aquele perfil, sem tempo de TV, de partido nanico e sem dinheiro, poderia se eleger presidente, derrotando as oligarquias políticas tradicionais do país? Como obteve ele esse resultado com um discurso conservador, falando em Deus, Pátria, Família e Liberdade?
 
Neste artigo, pretendo rolar o calendário político desde 18 de fevereiro de 2016. Naquele dia, sete dos onze ministros do STF decidiram criar nova jurisprudência, permitindo que réus condenados por órgão colegiado, em grau de recurso (segunda instância), pudessem ser recolhidos para cumprimento de penas privativas de liberdade. Foi quando a Lava Jato viveu um surto de produtividade, atendendo, em fila de confessionário, os pecados próprios e alheios dos penitentes, acompanhados de vultosas restituições de dinheiro roubado. Aquela importante e aguardada decisão – prisão após condenação em segunda instância, que mais tarde valeria contra Lula – foi aprovada com votos de quatro ministros indicados por Dilma (Teori, Fachin, Barroso e Fux), dois ministros indicados por Lula (Cármen Lúcia e Toffoli) e um indicado por FHC (Gilmar).
 
No dia 31 de agosto daquele mesmo ano (2016), após três meses de tramitações e numerosas manifestações populares, o Senado Federal aprovou o impeachment de Dilma Rousseff. Tão logo Michel Temer assumiu a presidência, iniciaram as especulações e tratativas sobre a futura eleição presidencial. Em dezembro (2016), as intenções de voto mostravam Lula com 28%, Marina com 17%, Alckmin e Jair com 8% cada um.
          
Em 12 de julho de 2017, o juiz Sérgio Moro condenou Lula a 9 anos e 6 meses de reclusão por crime de corrupção no caso do triplex de Guarujá. Em novembro, pesquisa Datafolha atribuía a Lula 37% das intenções de voto, 18% a Jair, 8% a Alckmin, 7% a Ciro.
 
Em março, já correndo o ano eleitoral, números levantados por CNT/MDA mostravam Lula 33%, Jair 17%, Marina 8%, Alckmin 6%. No início de abril, o TRF 4 confirmou a condenação de Lula pelo caso do triplex e ele foi preso no dia 7. Não obstante, ao longo do ano, as pesquisas continuavam mostrando Lula como candidato. No dia 26 de julho, os partidos do centrão (PSDB, DEM, PP, PRB, PR e Solidariedade), numa tentativa de restaurar o teatro das tesouras, oficializaram apoio a Alckmin.
 
Em 15 de agosto, a PGR impugnou a candidatura de Lula. Cabia ao TSE acolher ou não. No entanto, ainda em agosto, uma pesquisa Datafolha atribuía a Lula 39%, Jair 19%, Marina 8%, Alckmin 6% e Ciro 5%. Em 1º de setembro, um mês antes da eleição, o TSE confirmou a impugnação e Fernando Haddad foi ungido candidato do PT. Uma semana antes da eleição, pesquisa contratada pela TV Globo e Folha de São Paulo mostrava, no primeiro turno, Jair vencendo Haddad por 28% a 22%, mas … perdendo no segundo turno para Haddad, Alckmin e Ciro.
 
Foi ali, na mesa do segundo turno da eleição de 2018, entre os dias 8 e 29 de outubro, que a democracia e a liberdade do povo brasileiro subiram no telhado. Foi por seu papel decisivo naquele pleito, mais do que em virtude da COVID, que as redes sociais entraram na UTI e começaram a viver por aparelhos estatais controladores de seus conteúdos e seus visitantes. Contra as malditas redes sociais, antes das quais os donos do poder “eram felizes e não sabiam”, e contra seus usuários, todos os meios se tornaram válidos, inclusive os constitucionalmente proibidos.
 
Na derrota para Bolsonaro em 28 de outubro de 2018, foram traçados os planos que tirariam Lula da cadeia e o levariam pela mão, passo a passo, ao exercício dessa presidência grotesca, vivida longe do povo. Difícil imaginar que tudo tenha sido uma sequência indesejada de decisões inevitáveis.
 
Quatro anos depois, na posse de Lula, os que se disseram contramajoritários durante o governo conservador se tornaram contraminoritários! Paradoxal, não? Para conter a oposição supostamente minoritária, porque derrotada, os garantistas de ontem tratam, também, de acabar com garantias constitucionais. Profética, a estátua de Themis, em Brasília, não usa a balança da Justiça; carrega apenas espada e corta para um lado só.

(*) Percival Puggina (79) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Fonte: Site puggina.org, gentilmente disponibilizou este artigo para o DF In Foco News

Foto: Reprodução

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