Por Cláudio Ulhoa
Tem comparação que ajuda. Tem comparação que atrapalha. E tem aquela que faz a gente perguntar: Arruda, precisava mesmo puxar esse assunto?
Durante sabatina do Correio Braziliense, José Roberto Arruda resolveu comparar sua situação jurídica com a da governadora Celina Leão. A resposta veio sem anestesia. Celina recusou a equivalência, lembrou que nunca foi condenada no processo mencionado e aproveitou a deixa para trazer de volta episódios que acompanham a biografia política do adversário.
E aqui está o problema para Arruda: quando o assunto é passado, talvez seja melhor não entregar o álbum de fotografias para o adversário folhear.
Celina não deixou barato
“É um absurdo ele falar, ele se comparar comigo”, respondeu a governadora.
Celina então relembrou o episódio da violação do painel eletrônico do Senado, que terminou com a renúncia de Arruda em 2001. Não estamos falando de fofoca eleitoral ou de história inventada por adversário. O próprio Senado registra que Arruda reconheceu ter cometido um “grande erro” e admitiu também que inicialmente tentou negá-lo.
Ou seja: Arruda resolveu entrar numa discussão sobre histórico político justamente carregando uma mochila que está longe de ser leve.
É quase como disputar corrida carregando mala e reclamar que o adversário está correndo mais rápido.
“Medida protetiva para Brasília”
Mas Celina guardou a melhor, e mais debochada, parte para depois.
Ao falar sobre os anos em que Arruda enfrentou impedimentos eleitorais, criou uma metáfora que provavelmente ainda vai aparecer bastante nesta campanha:
“A Justiça deu uma medida protetiva pro Arruda […] pra ele não ferir mais a cidade.”
Calma. Evidentemente, não existe juridicamente uma “medida protetiva de Brasília contra Arruda”. Foi uma figura de linguagem utilizada por Celina.
Mas politicamente?
A frase foi uma pancada.
Porque conseguiu resumir em poucas palavras a estratégia que a governadora parece querer impor daqui para frente: toda vez que Arruda tentar apresentar o discurso do retorno, Celina pretende perguntar ao eleitor se Brasília realmente quer revisitar aquele passado.
Arruda queria falar de Celina. Terminou falando de Arruda
Esse talvez tenha sido o maior erro da comparação.
Arruda aparentemente queria reduzir a distância entre as duas situações jurídicas. Celina simplesmente recusou a premissa.
Ela afirmou nunca ter sido condenada no processo mencionado durante a sabatina e contrapôs isso ao histórico judicial do adversário.
E há fatos recentes que tornam difícil simplesmente retirar esse assunto do debate. Em julho de 2026, por exemplo, o TJDFT informou ter mantido a indisponibilidade de bens de Arruda e outros réus condenados em ação de improbidade relacionada à Operação Caixa de Pandora. Segundo o tribunal, a medida busca assegurar obrigações patrimoniais decorrentes da condenação.
Portanto, discutir o histórico judicial de Arruda não é ressuscitar artificialmente uma história enterrada. O assunto continua produzindo consequências jurídicas.
E ainda sobrou para o Zico
Arruda também havia recorrido a uma comparação com Zico para falar de sua trajetória.
Celina não perdoou:
“Pelo amor de Deus, os flamenguistas devem estar morrendo.”
Nesse ponto, até quem não acompanha futebol consegue entender a provocação.
Zico pode até ter perdido pênalti. Mas convenhamos: deixar o Galinho de Quintino fora dessa disputa parece uma atitude bastante sensata.
Uma coisa é perder uma cobrança.
Outra é tentar transformar décadas de controvérsias políticas e judiciais em um simples chute que passou ao lado da trave.
A metáfora não ajuda Arruda. Só oferece mais material para Celina.
Brasília precisa escolher entre currículo e nostalgia
É aqui que esta coluna assume claramente sua posição.
Entre Celina Leão e José Roberto Arruda, nosso apoio é Celina.
Não porque governante deva receber cheque em branco, Celina deve ser cobrada, fiscalizada e questionada como qualquer ocupante do Palácio do Buriti.
Nosso apoio decorre de uma escolha política e editorial baseada no que enxergamos para o Distrito Federal.
Arruda tem todo o direito de apresentar sua versão dos acontecimentos, recorrer à Justiça e buscar aquilo que a legislação lhe permitir. Mas querer colocar sua trajetória e a de Celina como se fossem equivalentes é outra história.
E Celina percebeu isso rapidamente.
Quando Arruda puxou a comparação, provavelmente esperava diminuir seu próprio passivo político.
Terminou oferecendo o microfone para Celina lembrá-lo.
Uai, Arruda…
Na próxima, talvez seja melhor mudar de assunto.
Fonte: DF Soberano




