Na perspectiva da extrema esquerda que nos afeta, a decisão dá causa a intensa indignação: ianques estão querendo se meter com o CV e o PCC. Estão intervindo em nossa soberania… As duas organizações são coisa nossa (“Cosa nostra!”, diriam sicilianos de Palermo). É uma orientação política que só vamos encontrar lá onde a picada termina; para ir em frente, há que roçar muito mato.
Os Estados Unidos, no uso da autonomia deles, declararam, para efeitos internos deles, que as duas organizações, que também atuam criminosamente por lá, são terroristas. O esquerdismo brasileiro reage com orgulho, sacode o pó do “lábaro estrelado” verde e amarelo e proclama (melhor seria dizer que confessa): “Aqui, no Brasil, temos uma lei sobre organizações criminosas e ela não inclui terrorismo!”. Entende-se, na perspectiva da extrema esquerda, terrorismo político é algo romanticamente revolucionário e, portanto, objeto de necessária proteção. Nossa história foi marcada por um período em que tivemos quase mais organizações terroristas do que times de futebol. Parte da elite política hoje de cabelos brancos foi militante do MR-8, da Ação Libertadora Nacional, da VAR-Palmares, da VPR e de tantas outras organizações! E esse pessoal nutre reverência e sentimento nostálgico em relação a dois Carlos – o Marighella e o Lamarca.
Todo bom policial sabe, porém, que PCC e CV inspiram um sentimento de medo nas sociedades onde se enraízam. Quem leu algo sobre Ciência Política sabe que provocar medo é uma forma poderosa de controle social. Sabia-o Machiavel quando afirmou ser mais confiável ao Príncipe inspirar medo do que suscitar amor. Thomas Hobbes sabia quanto o medo leva os homens a entregar sua liberdade ao Estado. Michel Foucault sabia quanto o pavor causado pelos malfeitores serve ao Estado para a expansão de seus mecanismos de opressão. Mundo afora, eram graduados nessas especialidades líderes que nosso esquerdismo inclui nas suas venerações: Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Kim Il-sung, Fidel, Guevara.
Não surpreende, pois, que os mesmos figurões da política que denominaram terroristas os desorganizados manifestantes da praça deserta no dia 8 de janeiro se recusem a enquadrar como terroristas as duas principais organizações criminosas do país. Como papagaios de pirata dos fatos, fazem o mesmo teatro os jornalistas adestrados que gastaram papel e tinta repetindo esse discurso diante de idosas senhoras e suas Bíblias. Uns e outros assim procedem, confiantes na ignorância dos leitores e eleitores que não percebem o abismo instalado entre o discurso e a vida de quem fala, nem a distância que tantas vezes separa a racionalidade das motivações individuais.
Como em tantas outras ocasiões, é irônico observar, mais uma vez, o mesmo fenômeno. Tudo que possa garantir mais segurança à população ganha oposição imediata e cega do governo, de seus aliados nos demais poderes da República e, claro, no mundo do crime.
(*) Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.


