“Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo.” (Mateus 23:24)
Pelas razões de sempre, é muito provável que a imensa maioria de nossos jovens nunca tenham ouvido falar na Primavera de Praga. No entanto, aquele acontecimento primaveril contra o qual o inferno comunista brutalmente arremeteu, entrou para a história e para o vocabulário político. A Tchecoslováquia era um daqueles belos países invadidos por Hitler em 1939 e transformados em despojos de guerra pelo comunismo soviético em 1945. Bota azar nisso! Já haviam transcorridos 23 anos quando, em 1968, o chefe de Estado tcheco, Alexander Dubcek, influenciado pelas ideias liberais de Ota Sik, mobilizou a população por reformas que ele mesmo cuidou de implantar. Ao arrepio das regras impostas por Moscou para todas as nações atrás da Cortina de Ferro, ele acabou com a censura, reabilitou os presos do regime e promoveu liberdades políticas e econômicas.
Com grande repercussão internacional, a situação se tornou intolerável para Leonid Breznev, líder soviético de então, que mandou meio milhão de soldados e tanques russos trazerem de volta ao cativeiro a desafortunada nação. A Primavera de Praga, porém, foi tão marcante que acabou dando nome “Primavera” a eventos libertários anteriores e posteriores, como a rebelião húngara de 1956, ocorrida 12 anos antes, à Primavera Árabe, iniciada em 2010 com consequências em países do Norte da África e Oriente Médio, ao movimento popular chinês de 1989, vitimado pelo massacre da Praça da Paz Celestial e até aos recentes protestos cubanos encerrados a pauladas no ano de 2021.
Faço este preâmbulo porque preciso dele para dar ênfase ao tema deste artigo num país onde a História é muito mal contada, manipulada e cheia de lacunas. Temos diante de nossos olhos as razões e, no calendário, o devido tempo para promovermos, no dia 5 de outubro, uma necessária Primavera Brasileira.
O simples fato de você, leitor, ter severas dúvidas sobre a possibilidade de que isso venha a acontecer fornece a prova da necessidade de que aconteça. Estão muito erradas as coisas em um país onde as pessoas perderam a confiança no Estado. Um país onde, em troca, o Estado não confia nas pessoas e não esconde o desejo de limitar a expressão das opiniões para manipulá-las mediante argumentos infames.
Foi nessa maré que se produziu a fragorosa derrota de uma nação pela falsa revolução dos omissos de 2022, militantes no cativeiro do sofá. Entregaram a própria casa – a Pátria que herdamos de nossos antepassados – para quem lhes é adversário em tudo que importa. Parecem feitas à medida deles as palavras de Jesus em João, capítulo 10, versículo 12, sobre aqueles que fogem quando vem o lobo para as roubar e dispersar.
Foi assim que o Brasil se tornou, em pouco tempo, o país dos escândalos seletivos, dos guias cegos e das blindagens. Uma nação protetora de suas prósperas organizações criminosas e tóxica em relação aos bens não materiais, apreciados, até mesmo, pelos revolucionários do mau humor, na prisão domiciliar dos sofás. Sai daí, cara! Quando o inverno acabar, vamos extrair desta eleição a Primavera do Brasil.
(*) Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.




