Brasília já viu muitos textos políticos travestidos de análise. Mas poucos começam com um erro tão elementar quanto chamar a Operação Drácon de “Operação Draco”. Pode parecer detalhe. Não é. Em jornalismo político-judicial, errar o nome da própria investigação que sustenta a tese do texto já revela o nível da apuração ou da intenção.
O problema não para aí.
O material que circula tentando associar a governadora em exercício Celina Leão a um suposto risco imediato de inelegibilidade ignora fatos objetivos: não existe condenação contra ela no caso Drácon, houve decisões judiciais relevantes afastando responsabilização penal no episódio e não há sentença com base na Lei de Improbidade Administrativa produzindo efeitos eleitorais automáticos, como o texto sugere de forma simplificada. A tentativa de transformar hipótese em “fato prestes a acontecer” não é análise jurídica, é narrativa política.
Aliás, o próprio argumento central do texto cai quando confrontado com a realidade processual. Não existe “inelegibilidade automática” por Improbidade como foi afirmado. Após a reforma da Lei de Improbidade Administrativa em 2021, sanções dessa natureza dependem de enquadramento específico, decisão colegiada e confirmação definitiva. O chamado “efeito automático” simplesmente não existe da forma descrita.
Curiosamente, enquanto o texto tenta criar um cenário hipotético contra Celina Leão, ele faz exatamente o oposto quando fala de José Roberto Arruda. Ali, a cautela desaparece e entra a afirmação categórica: estaria plenamente elegível. Sem debate. Sem ressalva. Sem referência jurídica atualizada.
A realidade é outra.
Decisões judiciais e interpretações jurídicas recentes apontam que o ex-governador ainda enfrenta barreiras legais relevantes no cenário eleitoral. Não se trata de opinião, mas de consequência jurídica derivada de condenações anteriores e do histórico processual que continua produzindo efeitos eleitorais. Transformar essa situação em “plena elegibilidade” exige mais criatividade narrativa do que fundamento legal.
Talvez por isso o texto tente compensar com outro recurso clássico: sugerir que haveria uma “máquina midiática” protegendo a governadora. A acusação é grave, e curiosamente feita sem citar contratos, números, decisões administrativas ou qualquer evidência concreta. Em jornalismo sério, insinuar sem demonstrar não é investigação. É retórica.
Há ainda outro ponto revelador: afirmar que “falta só o julgamento” no caso Drácon cria artificialmente a sensação de condenação iminente. Não cria. Processo judicial não funciona por calendário eleitoral nem por expectativa de adversário político.
O que esse episódio revela é o contraste entre fatos jurídicos verificáveis e narrativa política construída.
De um lado, uma governadora com trajetória parlamentar consolidada, quatro mandatos eletivos e nenhuma condenação vinculada ao caso citado. Do outro, um esforço recorrente de reinterpretação do cenário jurídico para tentar recolocar no tabuleiro eleitoral um nome que segue enfrentando barreiras legais objetivas.
Brasília conhece bem esse roteiro.
Primeiro vem o texto “analítico”. Depois a repetição da tese. Em seguida a tentativa de transformar hipótese em percepção pública.
O problema é que narrativa não altera decisão judicial.
E eleição não se decide com erro básico de apuração, muito menos trocando “Drácon” por “Draco”.
Fonte: Portal DF Soberano
Por Cláudio Ulhoa


