A campanha de Flávio Bolsonaro chega a este sábado (17) com três frentes importantes: a preparação para o primeiro debate televisivo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, a disputa judicial sobre propaganda eleitoral e a apresentação de propostas para a segurança pública.
O confronto entre os dois candidatos está confirmado para este domingo (18), às 20h, na TV Bandeirantes. A expectativa é que o encontro coloque em evidência temas como criminalidade, economia, direitos trabalhistas e programas sociais, em uma eleição marcada por pesquisas que indicam uma disputa apertada.
Debate da Band terá confronto direto entre os candidatos
Após inicialmente declarar que não participaria do debate, Flávio mudou de posição e confirmou presença na quarta-feira (14). Em vídeo publicado nas redes sociais, afirmou que a declaração anterior havia sido uma estratégia para garantir que Lula também comparecesse.
O presidente já havia confirmado participação no encontro. Será a primeira vez que os dois candidatos estarão frente a frente em um debate durante a campanha presidencial de 2026, já que ambos ficaram fora dos confrontos televisivos realizados no primeiro turno.
O programa será dividido em três blocos, com perguntas dos mediadores e momentos de confronto direto. No primeiro bloco, depois de responderem às perguntas iniciais, os candidatos terão 30 minutos de debate livre. As etapas seguintes combinarão questionamentos dos jornalistas, perguntas entre os adversários e considerações finais.
A transmissão começa às 20h e deve durar aproximadamente duas horas. Além da Band, o encontro será exibido pelos canais do Grupo Bandeirantes e por veículos parceiros, entre eles TV Cultura, TV Gazeta, Jovem Pan e o jornal O Estado de S. Paulo.
O debate representa uma oportunidade para os eleitores compararem diretamente as propostas dos candidatos, mas também aumenta a exposição de ambos a questionamentos sobre declarações anteriores e pontos ainda pouco detalhados dos respectivos programas de governo.
TSE suspende propaganda de Lula que associava Flávio a milícias
Na sexta-feira (16), o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou a suspensão de uma propaganda da campanha de Lula que associava Flávio Bolsonaro a milícias.
A peça havia sido exibida no horário eleitoral gratuito de 13 de outubro e utilizava personagens gerados por inteligência artificial para simular depoimentos, além de reproduzir trechos de um pronunciamento feito por Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2007.
Na avaliação de Mendonça, o material ultrapassou os limites da crítica política ao sugerir que o candidato integra organizações criminosas sem apresentar provas suficientes para sustentar essa conclusão. O ministro estabeleceu multa de R$ 10 mil por exibição em caso de descumprimento da ordem.
Flávio nega ter ligação com milícias e afirma que nunca defendeu a existência de grupos paralelos de poder destinados a extorquir trabalhadores.
A decisão, entretanto, não impede críticas políticas ao senador nem representa uma declaração geral sobre todas as questões relacionadas à segurança pública. Ela se refere especificamente à propaganda analisada pelo tribunal.
O caso também evidencia que a fiscalização eleitoral tem alcançado os dois lados da disputa. Anteriormente, o TSE havia suspendido uma propaganda de Flávio que associava Lula ao crime organizado sem sustentação factual suficiente. O entendimento judicial é que acusações dessa gravidade precisam estar apoiadas em elementos concretos, independentemente do candidato atingido.
Guilherme Derrite ganha força como possível ministro da Segurança
A segurança pública também está entre os principais assuntos da campanha. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo na sexta-feira aponta o senador eleito Guilherme Derrite como o nome mais cotado para comandar um eventual Ministério da Segurança Pública em um governo de Flávio.
Ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Derrite tem proximidade política com o candidato do PL e participou da elaboração de propostas para a área. O nome também conta com apoio de integrantes da federação formada por União Brasil e PP, partidos que apoiam Flávio no segundo turno.
A possível indicação, contudo, não foi oficializada. Segundo a reportagem, interlocutores dos dois políticos afirmaram que ainda não houve convite formal para que Derrite ocupe o cargo.
Outro nome mencionado nas articulações é o de Ronaldo Caiado, que declarou apoio a Flávio na disputa presidencial. Caiado tem experiência administrativa na área, mas enfrenta resistências dentro de setores do bolsonarismo.
No programa eleitoral, Flávio defende o endurecimento das políticas de combate à criminalidade, a ampliação de vagas no sistema prisional e mudanças nas regras de responsabilização penal. A escolha de um eventual ministro deverá indicar como essas propostas seriam transformadas em políticas públicas.
Maioridade penal tem apoio de 80% dos brasileiros, aponta Datafolha
Levantamento do Datafolha divulgado neste sábado (17) mostra que 80% dos brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.
Entre os eleitores que declaram voto em Flávio, o apoio chega a 89%. No grupo de eleitores de Lula, o índice é de 70%. A pesquisa também aponta que 18% dos entrevistados são contrários à mudança, enquanto os demais se declararam indiferentes ou não souberam responder.
O instituto entrevistou 2.520 pessoas com 16 anos ou mais nos dias 13 e 14 de outubro. A margem de erro geral é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. Para os recortes políticos, a margem informada é de três pontos.
A proposta defendida por Flávio prevê reduzir a maioridade penal para 16 anos em qualquer tipo de crime e permitir a responsabilização penal a partir dos 14 anos em casos considerados graves, como homicídio, estupro, tráfico de drogas e tortura.
Lula, por sua vez, declarou na quinta-feira (15) ser favorável à redução para 16 anos em casos de crimes hediondos, defendendo uma alteração mais restrita.
Apesar do apoio popular apontado pela pesquisa, a mudança ainda depende de tramitação legislativa. Como a maioridade penal está prevista na Constituição Federal, sua alteração exige uma proposta de emenda constitucional e aprovação pelo Congresso Nacional. O tema também envolve debates jurídicos sobre a constitucionalidade da medida e seus possíveis efeitos sobre a segurança pública.
Propostas trabalhistas continuam sob questionamento
Outro ponto que deverá entrar no debate de domingo é a posição de Flávio sobre o mercado de trabalho.
O candidato votou a favor da proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução gradual da jornada semanal, sem diminuição salarial. Ao mesmo tempo, defende a possibilidade de contratos mais flexíveis, com remuneração proporcional às horas trabalhadas.
A equipe do senador argumenta que a flexibilização pode estimular contratações e ampliar oportunidades para jovens e pessoas mais velhas. Entretanto, especialistas ouvidos pelo UOL apontam que o programa ainda não detalha os custos dos incentivos, a quantidade de empregos que poderiam ser criados nem as fontes de financiamento das medidas.
Uma das propostas apoiadas por Flávio prevê um regime alternativo à contratação tradicional pela CLT, com salário, férias, FGTS e décimo terceiro proporcionais às horas trabalhadas. Nesse modelo, uma redução da jornada poderia resultar em remuneração mensal menor, caso o valor por hora permanecesse igual.
A diferença em relação à proposta de redução da escala 6×1 é relevante: o texto apoiado pelo governo Lula prevê redução da jornada máxima sem diminuição salarial.
O tema poderá exigir explicações mais detalhadas de Flávio no confronto com Lula, sobretudo sobre a compatibilidade entre a flexibilização dos contratos, a proteção dos trabalhadores e a promessa de ajuste nas contas públicas.
Pesquisas mantêm cenário de disputa acirrada
Os levantamentos divulgados ao longo da semana reforçam que a eleição continua aberta. A pesquisa PoderData de 16 de outubro apontou empate entre Flávio e Lula, com 50% dos votos válidos para cada candidato.
Já o Datafolha divulgado no dia anterior mostrou Flávio com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, diferença que permanece dentro da margem de erro do instituto. A Quaest, por sua vez, registrou 46% das intenções de voto para o senador e 44% para o presidente, também em cenário de empate técnico.
A convergência dos levantamentos aponta uma disputa equilibrada, apesar das pequenas diferenças numéricas entre os institutos. As metodologias, os períodos de entrevistas e as margens de erro precisam ser considerados na comparação dos resultados.
Domingo pode marcar momento decisivo da campanha
Com o debate da Band marcado para este domingo (18), Flávio Bolsonaro terá a primeira oportunidade de confrontar diretamente Lula diante das câmeras no segundo turno.
O encontro poderá colocar à prova a capacidade dos candidatos de defender suas propostas, responder a críticas e apresentar explicações sobre temas que mobilizam o eleitorado, como segurança pública, trabalho e economia.
O segundo turno será realizado em 25 de outubro. Até lá, o desempenho no debate, a evolução das pesquisas e os desdobramentos das disputas judiciais deverão influenciar a reta final da eleição presidencial.
Por Gilvan Afonso




